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12 de Maio de 2012 Pesquisadores anunciam a descoberta de outro calendário maia
Documento contradiz a tese de que a civilização previu o fim do mundo para este ano

Pesquisadora trabalha na restauração de pinturas na parede da casa onde foi feita a descoberta: longa estação chuvosa ameaça a obra
Especialistas trataram de desmentir a errônea interpretação de que o mundo acabaria em 2012, mas ainda há quem acredite que o fim dos tempos está próximo. Agora, uma descoberta arqueológica na Guatemala encerra de vez a discussão. Escavações financiadas pela National Geographic Society revelaram o mais antigo calendário maia já encontrado. Embora alguns símbolos ainda não tenham sido decifrados, a peça apresenta previsões astronômicas, como eclipses e passagens de cometas que poderiam ser vistos da Terra, para os próximos 7 mil anos.
Os cálculos astronômicos estavam pintados na parede de uma casa, que os arqueólogos acreditam ter sido a habitação do escriba da cidade. No complexo de Xultún (região da Floresta de Petén, no Norte guatemalteco), o líder das escavações, William Saturno, da Universidade de Boston, descobriu não apenas o calendário do século 9 d.C., o que já seria uma revelação incrível, considerando que não havia, até agora, registros de “folhinhas” do período clássico (200 d.C. a 900 d.C.). Mais do que isso, porém, Saturno identificou ricas pinturas artísticas adornando as paredes, jamais vistas em outro sítio arqueológico dessa civilização.
Xultún, uma área de 30 quilômetros quadrados, foi descoberta em 1915 por um guatemalteco e mapeada pela primeira vez cinco anos depois pelo arqueólogo americano Sylavuns Morley. Na década de 1970, cientistas da Universidade de Harvard voltaram ao local e fizeram uma nova catalogação de construções arqueológicas, mas acredita-se que ainda há muito o que se descobrir no local. A estrutura descrita agora por Saturno foi identificada há dois anos por Max Chamberlain, aluno do arqueólogo, que procurava por construções engolidas pela floresta tropical. Desde então, uma equipe vem trabalhando arduamente para preservar o achado – há riscos de que, nas longas estações chuvosas, as pinturas nos murais sejam destruídas.
Padrões desconhecidos A casa, de acordo com William Saturno, fazia parte de um complexo residencial e há indícios de que, ao longo do tempo, foi sofrendo modificações. O ambiente mais novo é justamente onde foram descobertas as pinturas nas paredes, incluindo o calendário. Em um dos muros, os arqueólogos descobriram um grande número de pequenos e delicados hieróglifos escritos em vermelho e preto, diferentes dos padrões observados em qualquer outro sítio maia. Alguns parecem representar os vários ciclos dos calendários dessa civilização, como o de 260 dias (cerimonial), o de 365 dias (solar), o ciclo de 584 dias do planeta Vênus e o ciclo de 780 dias de Marte. “Isso é completamente diferente de tudo que já conhecíamos da cultura maia”, disse o professor de arte mesoamericana da Universidade do Texas, David Stuart, que decifrou os hieróglifos.

O calendário traz cálculos sobre o movimento de astros como a Lua e Marte
A área norte da casa dá acesso às demais e, em um nicho central, há o desenho de um rei sentado, usando penas azuis. “Um varão feito de ossos permitia puxar uma cortina para esconder a imagem do monarca e revelar uma pintura muito bem preservada de um homem com uma caneta na mão. Hiegróglifos ao lado do seu rosto o identificam como “irmão mais novo obsidiano”, um curioso título raramente visto em textos maias. Baseado em outros sítios da civilização, Saturno teoriza que o homem retratado poderia ser o filho ou irmão mais novo do rei e, possivelmente, o artista escriba que viveu na casa. “O retrato do rei implica uma relação entre quem viveu nesse espaço e a família real”, conta. Um dos números riscados na superfície provavelmente registra a data de 813 d.C., uma época em que o mundo maia havia começado a entrar em colapso.
Na área oeste há três figuras masculinas, todos sentados e pintados em preto, usando apenas tangas brancas, medalhões nos pescoços e uma espécie de mitra na cabeça. “Nós nunca tínhamos visto esse tipo de ornamento para a cabeça”, disse o professor da Universidade de Boston.
Matemática avançada Apesar de muito danificada, a parte leste também tem figuras de homens. Mas as principais ilustrações são números, incluindo colunas de contas e cálculos astronômicos. Alguns rastreiam as fases da lua, outros tentam encaixar os ciclos lunares com o calendário solar. “Essas observações provavelmente eram uma ferramenta para predizer a ocorrência de eclipses”, afirma. Em uma sessão muito bem preservada, há números pintados em vermelho, que, aparentemente, eram correções de outros cálculos feitos na parede. “O ponto mais impressionante é conseguirmos ver que os maias faziam contas computacionais séculos atrás e em outros locais além dos livros”, observou Anthony Aveni, professor de astronomia e antropologia da Universidade de Colgate e coautor do estudo publicado na revista Science.
Quanto ao fim do mundo, os especialistas reforçam que não há qualquer referência nem no calendário encontrado nem em qualquer outro já descoberto. “Os calendários maias eram baseados em ciclos de aproximadamente 130 mil anos, cada um”, explicou Aveni. “É como o odômetro de um carro. Quando atinge uma determinada quilometragem, ele zera para recomeçar. Assim funcionavam os ciclos dos maias”, disse.
Saiba mais
Mudança no clima levou ao declínio
O enigma do declínio das cidades maias intriga historiadores, que acreditam terem sido as mudanças climáticas as grandes vilãs dessa cultura. Uma pesquisa publicada recentemente na Science indicou que a crise da civilização clássica foi acompanhada de uma redução anual de 40% das chuvas. As tempestades de verão, com as quais eles estavam habituados, ficaram cada vez mais fracas, intensificando a seca e levando os maias a abandonar seus imponentes centros urbanos. O colapso da cultura é uma das questões que mais atraem historiadores ocidentais desde que cidades inteiras foram encontradas, no século 19, nas regiões tropicais do México e da América Central, pelos viajantes John Stephens e Frederick Catherwood. Desde então, já surgiram teorias sobre guerras civis, epidemias, furacões e terremotos, entre outras. Nos últimos anos, porém, pesquisas mais precisas, baseadas em tecnologia de última geração, reforçam a ideia de que os maias abandonaram as cidades glamorosas por causa das mudanças climáticas. No Sudeste mexicano e no Nordeste da Guatemala, o clima tornou-se muito seco por volta do ano 1000. Com isso, houve erosão e, como em um efeito dominó, havia pouca água para evaporar e formar chuva. Em busca de sobrevivência, os maias desceram a serra, adentraram as florestas tropicais e buscaram regiões boas para cultivar alimentos. A escassez de recursos naturais foi acompanhada de uma drástica redução populacional.
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